Artigo de Opinião


Territórios de resistência quilombola em festa

Aos 20 de novembro celebramos o Dia Nacional da Consciência Negra. Uma referência ao líder Zumbi dos Palmares, que nasceu na Serra da Barriga, no ano de 1655, e faleceu no quilombo dos Palmares, aos 20 de novembro de 1695. Este jovem guerreiro teve como companheira Dandara dos Palmares. Desde 2003, nesta data, celebramos o Dia da Consciência Negra.

As festividades da Consciência Negra atualizam as lutas de resistência quilombola por todo o nosso imenso país. Nesta data não se quer apenas fazer referência a Zumbi dos Palmares, mas trazer presente a luta de tantas lideranças que reuniram seu povo no desejo da conquista da terra sem males.

Os territórios quilombolas são espaços de resistência, mostrando que a liberdade não se ganha, mas se conquista. Cada território é espaço de vida e por meio de muitos sinais se expressam a força da luta de um povo guerreiro.

A resistência quilombola se expressa numa grande teia. Segundo dados publicados pela Fundação Cultural Palmares, em abril de 2014, existem, no Brasil, 2007 comunidades remanescentes de quilombos autorreconhecidas e certificadas pela instituição. Na Paraíba, elas são 32. Sabemos, no entanto, que esse número não abrange todo o universo das comunidades negras no Estado.

No Médio Sertão da Paraíba, esta teia de resistência quilombola se articula em sete municípios: Manaíra (Fonseca), São José de Princesa (Livramento), Tavares (Domingos Ferreira), Cacimbas (Serra Feia, Aracati & Chã), Livramento (Areias de Verão e Sussuarana), Santa Luzia (Talhado) e Várzea (Pitombeira). Estes quilombos se articulam em rede, desde 2006, por meio da Comissão dos Territórios Quilombolas do Médio Sertão, proporcionando assim conquistas em relação as políticas públicas, em âmbito municipal, estadual e federal. Este trabalho vem sendo acompanhado pela Ação Social Diocesana de Patos, por meio do Programa de Promoção e Ação Comunitária (PROPAC).

Fortalecer as identidades quilombolas tem sido o foco deste trabalho de articulação. Neste aspecto, vem se realizando o resgate da história de cada comunidade, bem como os sinais de resistência que garantem a vida com dignidade nas diferentes localidades. Neste resgate, há um olhar específico para a vida de cada pessoa que constitui a força dos territórios de resistência quilombola. Neste sentido, as pessoas são provocadas a um olhar especial para o seu corpo enquanto espaço sagrado e território de resistência: cada pessoa é única e carrega um patrimônio natural que deve ser contemplado com grandeza.

Por meio do resgate da resistência quilombola, há um olhar especial para o patrimônio cultural cultivado em cada território de resistência. Neste aspecto, as escolas são provocadas a construção de uma proposta pedagógica que esteja em diálogo com a vida que emana em cada território como espaço de vida. A força da resistência quilombola tem se fortalecido por meio de processos de organização comunitária. Há uma luta, por intermédio das associações quilombolas, pela conquista de direitos, bem como por sua implementação.

Nos últimos anos, há o fortalecimento da presença das juventudes nos espaços de resistência quilombola, seja pela autoafirmação cultural, seja pelo fortalecimento dos espaços organizativos.

Neste ano de 2022, os quilombos do Médio Sertão estão se mostrando bem mais fortalecidos. Em novembro, nos sete municípios, com presença quilombola, tem havido grande movimentação. Aos 14 de novembro, no quilombo do Talhado, em Santa Luzia, houve um momento celebrativo em alusão aos 65 anos do filme Aruanda, sendo assim um marco do Cinema Novo no Brasil. No dia 18, houve celebração da Consciência Negra nas seguintes localidades: Pitombeira (Várzea), Fonseca (Manaíra), Areias de Verão e Sussuarana (Livramento). No dia 20 de novembro, a celebração acontecerá nas seguintes localidades: Domingos Ferreira (Tavares), Aracati e Chã (Cacimbas). No dia 27 de novembro, a celebração da Consciência Negra será no quilombo do Livramento (São José de Princesa). No dia 27 de novembro vai ainda acontecer o II Festival Paraibano da Cultura Quilombola, realizado pelo Governo do Estado, no quilombo da Serra do Talhado. Este evento contará com a participação de 32 quilombos da Paraíba.

Toda esta movimentação no Médio Sertão e no estado da Paraíba é uma amostra de como a resistência quilombola está presente. Falar de quilombo não é apenas falar de um passado distante, mas é reconhecer a força da ancestralidade dos povos quilombolas que se fazem presença em tantas expressões de luta.

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