Artigo de Opinião


Somos trindade

Quem é o ser humano? Esta é uma pergunta importante a ser feita, até mesmo para nos compreendermos enquanto ser, enquanto pessoa, bem como para um melhor entendimento sobre a natureza humana.

Uma resposta bem recorrente a esta pergunta vem assentada de conotação religiosa, apresentando-lhe como “imagem e semelhança de Deus”. A citação bíblica que faz menção a esta afirmativa está no livro do Gênesis (1,26): “E Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança[...]’” A tradição bíblica apresenta esta afirmativa com um verbo conjugado no plural, então o “façamos” é, além de um ato, um convite: não somente Deus age para a criação humana, mas, enquanto humanos, somos convidados a compreender a pessoa humana enquanto expressão divina: somos criaturas de Deus.

Mas, se somos imagem de Deus, quem é este Ser que nós somos imagem e semelhança? A tradição cristã compreende que Deus é Trindade, é Comunidade Divina. Um dos textos bíblicos que faz alusão a esta configuração divinal está também no livro do Gênesis (18,1-8), utilizado como base meditativa ao ícone de autoria de Andrei Rublev, que apresenta as três pessoas divinas como as três pessoas que se apresentaram a Abraão, junto aos carvalhos de Mambré. Na cena, os três anjos são apresentados da esquerda para a direita na ordem como a apresentada no credo: Pai, Filho e Espírito Santo. (Quem desejar uma explicação bem completa e de forma clara pode acessar  http://pensandoaltofilosofia.blogspot.com/2016/08/como-ler-o-icone-da-santissima-trindade.html). Sobre a leitura proporcionada em relação as três pessoas divinas, esclarece-se:

O primeiro anjo veste azul, simbolizando a natureza divina de Deus, e uma sobrepeça púrpura, indicando a realeza do Pai. O segundo anjo é o mais familiar, vestindo trajes tipicamente usados por Jesus na iconografia tradicional. O terceiro anjo veste o azul da divindade e uma sobrepeça verde, cor que aponta para a terra e para a missão da renovação do Espírito Santo.

Desta forma, Deus é constituído por três pessoas, com uma só natureza divina. Cada uma delas é Deus e age em comunhão com as outras duas. Esta interconexão divina é explicada a partir de uma palavra “pericorese”, que significa a unidade e comunhão da Trindade: o Pai é uno no Filho e o Filho é uno no Pai, e ambos unos no Espírito Santo. E é por meio destes passos que a Igreja age e reza, sempre por meio desta interconexão divina: ao Pai, por Jesus Cristo, em unidade com o Espírito Santo. Ao contemplar o Filho, chega-se ao Pai, em unidade com o Espírito Santo: “Quem me vê, está vendo o Pai.” (Jo 14,9). E “[...] o Espírito Santo, que o Pai vai enviar em meu nome, ele ensinará a vocês todas as coisas e lembrará a vocês tudo o que eu lhes tenho dito”. (Jo 14,26).

Se Aquele a quem somos imagem e semelhança é Trino, por meio das três pessoas divinas, então há de se compreender o ser humano enquanto trindade, ou melhor, enquanto um ser tridimensional: somos um ser biopsiconoético. Em nós, há três dimensões: biológica, psicológica e noética ou espiritual. E, conforme nos explica o psicólogo argentino Prof. Dr. Cláudio García Pintos, a pessoa humana é unidade por integração. A unidade está presente em qualquer expressão humana. E nenhuma delas pode ser anulada. Caso isto ocorra, a anulação se dá por completo. Neste aspecto, o citado psicólogo apresenta a seguinte matemática: o ser humano é biopsicoespiritual (1x1x1=1), caso alguma dessas dimensões sejam anuladas, o resultado será zero. Em sua completude, o ser humano é trino, sendo que a pessoa se faz presente em sua unidade. Aquilo que marca a minha presença no mundo, tem uma tríplice assinatura. Quando trabalho, não somente expresso a minha capacidade física, mais psíquica e espiritual. Somos unidade.

E é por meio desta unidade, que somos capazes de superar qualquer limitação de ordem física ou psíquica. E é por meio desta tomada de consciência que a pessoa vai dando respostas as perguntas que a vida lhe faz, não como casualidade, mas como possibilidade de transcender aos limites que podemos ser acometidos. Por exemplo: diante de uma fatalidade, ao invés de se perguntar “por que aconteceu isto comigo?”, pergunta-se “Para que aconteceu isto comigo?” No primeiro caso, a resposta culminará com uma frustração e uma impossibilidade de superar possíveis limitações; no segundo caso, se encontrará forças para entender que apesar do sofrimento a vida nos aponta possibilidades de superação. É na tomada de consciência desta tridimensionalidade da vida, que passamos ao reencontrar o sentido que a vida nos possibilita.

Somos unitas multiplex, unidade na diversidade, conectados a um Divino que também assim se expressa. E é por meio desta conexão que passamos a compreender quem somos e para onde vamos: somos trindade, imagem e semelhança da Trindade Divina e para Ela estamos em marcha, a fim de sentarmos com Ela à mesa, para participar do banquete celestial.

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