Artigo de Opinião


O amor enquanto elo de conectividade

Somos seres relacionais. Quanto mais conseguimos está para o outro, mas nos autoafirmamos em nossa humanidade. Alcançamos a plenitude, enquanto pessoa, à medida que cultivamos expressões de alteridade. Partir ao encontro do outro, é muito mais possibilidade de crescimento para quem parte, do que para quem recebe a ação fruto desta atitude. O maior elogio expressado por Jesus, na parábola do samaritano (Lc 10,25-37), não é dirigido a quem recebeu a ajuda, mas a quem partiu ao encontro da pessoa caída. Mesmo que esta não saiba que está sendo ajudada, mas a atitude de quem parte ao encontro do outro, é que torna o gesto grandioso. É o que se diz: fazer o bem sem olhar a quem.

A mística cristã nos ensina que o partir em direção ao outro não deve ser por qualquer interesse, nem por competição ou para receber elogios, conforme nos ensina o autor da carta aos filipenses: “Não façam nada por competição ou pelo desejo de receber elogios, mas com humildade, cada um considere os outros superiores a si mesmo.” Este sentimento é o que recebe o nome de kenosis, que vem a significar o ato de esvaziar-se, preservando a própria identidade, fazendo-se abertura ao outro para nele se encontrar.

Diante do exposto, queremos trazer o exemplo de São Charles de Foucauld, canonizado neste 15 de maio, pelo testemunho tão atual de vivenciar a sua fé no anonimato, inspirando-se na vida oculta do nazareno entre os 13 e 30 anos. E aqui vale ressaltar o testemunho dos irmãozinhos de Charles de Foucauld, que, na atualidade, assumem sua missão nas periferias de grandes centros urbanos, vivendo do seu próprio sustento, e anunciando o evangelho pelo testemunho da acolhida a quem experimenta tantas situações de exclusão.

O esvaziar-se em direção ao outro é a possibilidade de acolher simplesmente pela condição humana de ser. Não importa o estado em que a pessoa se encontra, merece atenção e cuidado. A diferença que muitas vezes incomoda a tanta gente, que vive obcecada por padrões hegemônicos, não afasta o zelo e cuidado perante as suas necessidades. Afinal, há em cada pessoa, uma centelha divina que pode desabrochar, quando a esta lhe possibilita condições para tal. Aqui queremos externar o belíssimo trabalho de Alcoólicos Anônimos, cuja missão tem possibilitado o reencontro de tantas pessoas consigo mesmo e com seus entes queridos. Aqui em Patos, esta centelha divina completa 49 anos. Quantas pessoas que não mais encontravam razões para viver e, ao serem acolhidas lhes foram possibilitadas uma nova chance de experimentar a preciosidade da vida e uma saudável convivência consigo mesmo, com seus amigos e com seus entes mais próximos.

A grandiosidade de tantas experiências, que se tornam grandes pela forma anônima de se expressar é que vai se dando um diferencial nas relações humanas. Vale destacar, entre estes tantos anônimos, tantas pessoas voluntárias, que doam parte do seu tempo, em vista do bem-estar de quem para a sociedade não tem mais jeito. E a força interior que motiva esta gente é tão grandiosa que não se limita a denominações religiosas, agremiações partidárias, etnias, ou quaisquer outras especificidades, considera-se como bem maior a restauração de quem está no fundo do poço. Tamanha grandiosidade, mesmo recebendo tantos nomes, está conectada a força do amor, expressão máxima de apoio ao próximo de forma desinteressada, como tão bem a nós expressa o autor da primeira carta aos coríntios (1Cor 13,5s): “o amor é paciente, prestativo é o amor, não é invejoso, não se vangloria, não se incha de orgulho.” E mais: “não falta com o respeito, não é interesseiro, não se irrita, não planeja o mal.”

Diante tamanha grandiosidade, podemos compreender a força acolhedora do trabalho de tantas pessoas voluntárias, que não medem esforços a fazer o bem sem olhar a quem, no testemunho deixado por Jesus Cristo, ao trazer a amorosidade como método a ser seguido: “Venham a mim, todos vocês que andam cansados e curvados pelo peso do fardo, e eu lhes darei descanso.” (Mt 11,28). Ao mesmo tempo, ele se apresenta como suavidade, diante de um mundo que tantos fardos coloca nos ombros de quem sofre.

O grande sinal de ressurreição que podemos contemplar nestes sinais é o elo que conecta tantas forças do bem que se fazem presença em nossa sociedade. Tal conexão se dá mediante o grande mandamento por Jesus ensinado, conforme expressa o próprio Cristo: “Este é o meu mandamento: Amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês.” (Jo 15,12). O amor é a seiva que nos conecta a Jesus e, por meio dele, chegamos até o Pai. A tradição cristã compreende esta conectividade como uma possibilidade de estarmos em comunhão com esta força Trinitária.

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