Artigo de Opinião


Ele está no meio de nós

Se Cristo não tivesse ressuscitado vã seria a nossa fé (cf. 1Cor 15,14): aqui se encontra a centralidade do que é anunciado e vivenciado pelo cristianismo. Ao mesmo tempo, não se pode esquecer que o ressuscitado é o crucificado, conforme dissera o próprio Cristo a Tomé: “'Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos.
Estende a tua mão e coloca-a no meu lado.” (Jo 20,27). Em seu corpo glorioso, o ressuscitado traz as marcas resultantes da sua missão, em virtude da não aceitação da mensagem de amor anunciada pelo Filho de Deus.

O tempo da Páscoa é um período em que as comunidades cristãs são chamadas a um mergulho na centralidade da fé. São vários os sinais expressos, a fim de que possamos observar a manifestação da presença do ressuscitado no tempo presente. Não podemos cair na tentação de observar os fatos vivenciados pelo Nazareno como algo preso a um passado. Ao contrário, aquilo que fora vivenciado pelas primeiras comunidades também pode ser experienciado no tempo presente.

Ao contemplar as leituras propostas a cada domingo, deste tempo pascal, podemos, seguindo os passos de quem acompanhou o Nazareno, mergulhar, nos tempos atuais, em tão grande mistério. O túmulo vazio é grande sinal: “Ele não está entre os mortos!” (Jo 20,1-9). Aqui podemos chegar junto de quem viu os primeiros sinais desta grande explosão de vida, por meio do que fora vivenciado por Madalena, João e Pedro.

No passo seguinte, podemos mergulhar na profundidade da mensagem anunciada pelo ressuscitado: “a paz esteja com vocês!” (Jo 20,19-31). Tal anúncio, possibilita à comunidade exorcizar o medo que lhes aprisionava, sendo assim, recobravam as forças de enfrentar os anunciadores da morte. Perante esta vivência, a comunidade vem a ser desafiada a compreender o anúncio desta paz tendo o mistério da encarnação como chave de leitura. O anúncio da tão sonhada paz não nos afasta dos conflitos, mas fortalece em nós o sentido da luta pela implantação do Reino de Deus.

No terceiro domingo, somos desafiados a compreender a força da ressurreição na perseverança perante os conflitos vivenciados na realidade (Jo 21,1-14). Mesmo o mar não estando para peixe, há sempre uma possibilidade de lançar às redes: desistir jamais! A resposta dada à pergunta feita pelo ressuscitado, “Tendes algo para comer”, é algo tão recorrente num contexto em que a perversidade da fome insiste em se fazer presença. Na cena, Jesus se solidariza com eles e se faz presença na partilha dos pães e dos peixes. Em nossos tempos, o ressuscitado clama por mudanças na economia, pois a fome que insiste em se fazer presença é um sinal que o mundo ainda tem dificuldade de acolher a mensagem da partilha e da solidariedade expressa pela força do ressuscitado.

No quarto domingo da Páscoa, Domingo do Bom Pastor (Jo 10,27-30), podemos contemplar a presença do ressuscitado na possibilidade de escuta dos clamores de quem sofre e na capacidade de zelo pelo caídos da sociedade. O gesto de fazer o bem, sem olhar a quem é uma bela expressão de fé, em comunhão com Jesus, Bom Pastor. Fazer-se próximo do outro, especialmente de quem passa por alguma necessidade é um desafio que nos é imposto.

Neste quinto domingo, a fé no ressuscitado é expressa por meio de um novo mandamento (Jo 13,31-33a.34-35):

Filhinhos, por pouco tempo estou ainda convosco. Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.

Neste contexto, o amor ao próximo vem a ser apresentado como uma expressão da fé no ressuscitado. E aqui não podemos esquecer da resposta dada por Jesus, quando indagado sobre quem é o próximo. A resposta dada foi a parábola do bom samaritano. (Lc 10, 25-37).

Estes passos percorridos é uma bela catequese para que compreendamos a materialidade da nossa fé no ressuscitado e os efeitos que vem a provocar na vida pessoal de cada um de nós, bem como da vida em comunidade e até em sociedade. É por meio de tal vivência, que somos desafiados a ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16): não podemos perder o sabor e nem se colocar abaixo da nossa capacidade de irradiar esta luz, cuja fonte está na explosão de vida irradiada a partir do túmulo vazio.

A fé no ressuscitado não combina com nenhuma expressão que venha a gerar morte, não combina com discursos de ódio, com modelos econômicos que promovem a fome, com governos autocráticos. Quando mais se aumenta a fome, mais é um indicativo de que não apenas se deve falar o nome de Deus, mas agir pela implementação de políticas públicas que promovam a vida, expressão máxima da mensagem anunciada pelo ressuscitado.

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