Artigo de Opinião


A necessidade de reacender o encanto pela política

O que entendemos por encanto? O que é está encantado por algo ou alguém? É importante a compreensão de que a palavra encanta está relacionada àquilo que apresenta boas qualidades, beleza e simpatia, sendo que tal sentimento pode ser direcionado a alguém ou a algo. Sendo assim, podemos nos encantar por um lugar, um objeto ou por uma pessoa. O encanto produz brilhos nos olhos! Porém, diante tal explicação, por que estamos desencantados com a política?

Há uma narrativa recorrente de desencanto com a política. Ao mesmo tempo, a cada eleição há um envolvimento com o pleito de forma tão apaixonada que fica difícil qualquer discussão sobre o assunto. O apaixonado age pela emoção e não consegue ver defeito no objeto de sua paixão. Neste caso, em relação à política, age-se como se da política não dependesse toda a nossa vivência enquanto cidadãos. Em cada localidade, há os encantamentos por grupos políticos, que são apresentados por meio de cores, apelidos e até brincadeiras.

Tais atitudes, frente a algo tão sério, beneficia a quem? Aos grupos políticos tradicionais, que se mantêm no poder há décadas, mudando apenas a fisionomia: as raposas velhas são substituídas por seus filhos e netos. Raramente, é que alguém que não está vinculado, por parentesco ou aliança, consegue se eleger. E esta forma de fazer política está ficando cada vez mais violenta: desde agressões verbais, físicas ou até mesmo pelas chamadas Fake News.

Há denúncias de que forças criminosas estão cada vez mais ocupando espaços neste cenário, seja pelo financiamento de campanhas ou mesmo pela candidatura de representações destas forças. Há algum tempo, que se denuncia a presença de tais grupos por meio das chamadas “bancadas do boi, da bala e da bíblia”, considerando que conseguem aprovar leis que favoreçam ao agronegócio, à mineração, ao acesso a armas e tudo fortalecido por uma narrativa religiosa, com conotação cristã-neopentecostal. Este jeito de fazer política parece estar cada vez mais fortalecida, considerando que a cada eleição se constata que estas forças estão cada vez mais presentes nas casas legislativas ou mesmo no executivo.

Diante desta situação, o grande desafio é que boa parte da população não consegue enxergar esta triste realidade que coloca cada vez mais em risco a nossa democracia. Pois, quando se alimenta uma política de privilégios, cada vez mais o que deveria ser destinado aos cidadãos, vai sendo direcionado a grupos privilegiados. Sobre este fato, há denúncias sobre um aumento na concentração de renda, num cenário em que a fome e o estado de insegurança alimentar aumentam cada vez mais. As riquezas desde país têm destino certo, sendo acessada cada vez mais por grupos mais restritos.

Diante deste cenário, a Igreja aponta o desafio da necessidade de reacender o encanto pela política, trazendo como necessário o entendimento de que não podemos limitar esta questão apenas aos momentos eleitorais, mas como parte necessária de se vivenciar a democracia, que deve culminar com a partilha justa dos bens produzidos. Neste sentido, vale lembrar a envolvimento da Igreja em tantos movimentos em vista do fortalecimento da democracia em nosso país, desde a participação em conselhos paritários, como na mobilização para os orçamentos democráticos, audiências públicas, aprovação de projetos de lei, dentre outros.

Dentre os produtos de comunicação ou de formação de base, foi apresentada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil o Caderno Encantar a Política, organizado em cinco capítulos: 1º – A universalidade do amor cristão; 2º - Amizade social e ética da política; 3° - As grandes causas do Evangelho; 4º - Cuidar da Casa Comum; 5º - 2022: Eleições e Democracia. A presente cartilha é um projeto que retoma questões centrais das encíclicas do Papa Francisco – Laudato Sí, Fratelli Tutti e da Exortação Apostólica pós-sinodal, Alegria do Evangelho que tratam a Política como decorrência ética do mandamento do amor, assumindo-a no sentido mais profundo da palavra. É um projeto que busca aplicar os ensinamentos do Papa Francisco à nossa realidade atual.

O estudo deste material é de estrema importância, a fim de que cada vez mais nos motivemos na luta pela manutenção da nossa democracia, bem como pela justa distribuição dos bens produzidos. Além do mais, precisamos ampliar o nosso entendimento por caridade, tendo na política a forma sublime de praticá-la. Neste sentido a cartilha nos lembra que o Papa Francisco nos chama a participar da política “[...] com ‘o objetivo de organizar e estruturar a sociedade’, para que as instituições do Estado – que é o campo próprio da Política – funcionem de modo tal ‘que o próximo não se venha a encontrar na miséria’.” (Cartilha, p. 13). O encanto pela política é necessário, a fim de que o próximo não caia na miséria e o Estado proteja os cidadãos da ganância do capital, por meio da implementação de “[...]políticas públicas que promovam a distribuição de bens e não deixem pessoas desvalidas na miséria são formas sublimes de Caridade, [como] já diziam os Santos Paulo VI e João Paulo II.” (Idem, p. 13).

Diante tanta intolerância e ameaça a democracia, precisamos cada vez mais de fortalecermos espaços que venham reacender em nós o encanto pela política.

 

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