Artigo de Opinião


A inspiração está em Jesus

“Jesus Cristo fez-se pobre por vós” são estas palavras, presentes na segunda carta de São Paulo aos Coríntios (8,9), que inspiram o Papa Francisco na escolha do tema para a VI Jornada Mundial dos Pobres. O pontífice nos lembra que, com esta afirmação, Paulo provoca à comunidade de Corinto para fortalecer o compromisso com a solidariedade. Vale lembrar a expressão do cântico: “Onde sofre o teu irmão, eu estou sofrendo nele”. 

A solidariedade, portanto, é a grande motivação que nos leva ao cuidado com as pessoas mais necessitadas. A solidariedade expressa às pessoas que estão à margem é um ato de fé: é a manifestação do zelo diante da desfiguração da imagem e semelhança de Deus. É a quebra deste elo que vem causando tanta destruição em nossa Casa Comum.

Na Carta, o Papa fala da esperança que se sobrepôs quando a humanidade viu a pandemia sendo vencida. Novos horizontes estavam sendo vislumbrados, inclusive com a possibilidade de recuperação econômica. Entretanto, a insensatez humana se expressa numa guerra, de proporções mundiais, que, somada a tantas outras regionalizadas, dar margem a tantas mortes, como também ao aumento no número de refugiados. Diz o Francisco:

Quantos pobres gera a insensatez da guerra! Para onde quer que voltemos o olhar, constata-se como os mais atingidos pela violência sejam as pessoas indefesas e frágeis. Deportação de milhares de pessoas, sobretudo meninos e meninas, para os desenraizar e impor-lhes outra identidade.

A fala do Papa nos remete a tantas outras formas de insensatez que identificamos ao nosso redor: aumento da fome, intolerância diante das diferenças, racismo, pavor ao pobre, aumento do desemprego, violência contra a mulher, ameaças à democracia, toxidade nas relações, cansaço dos bons, dentre outras.

Esta análise nos provoca a não cultivar diante do sofrimento do outro nenhum clima de indiferença, como também não podemos, diante do nosso sofrimento, promover situações de desespero. Neste sentido, precisa-se de foco. E o Papa nos lembra que isto somente será possível se mantivermos o olhar fixo em Jesus, que se fez pobre, a fim de que todas as pessoas que estavam em situação de empobrecimento, desprezo ou em estado de vulnerabilidade fossem resgatadas, fossem acolhidas. Aqui podemos parafrasear uma expressão de Dom Pedro Casaldáliga: o estado de vulnerabilidade do outro é para ele uma necessidade material, mas para mim deve ser uma necessidade espiritual.

Diante desta situação, conforme nos lembra o Papa Francisco, as pessoas vitimadas pelos sistemas de morte, presentes na sociedade, devem estar na centralidade da vivência cristã. Afinal, não se pode cultivar sentimentos de indiferença perante o sofrimento do outro.

No contexto da comunidade de Corinto, Paulo pede que a solidariedade seja cultivada por meio de obras de caridade. No atual contexto, alerta-nos Francisco:

No caso dos pobres, não servem retóricas, mas arregaçar as mangas e pôr em prática a fé através dum envolvimento direto, que não pode ser delegado a ninguém. Às vezes, porém, pode sobrevir uma forma de relaxamento que leva a assumir comportamentos incoerentes, como no caso da indiferença em relação aos pobres. Além disso acontece que alguns cristãos, devido a um apego excessivo ao dinheiro, fiquem empantanados num mau uso dos bens e do património. São situações que manifestam uma fé frágil e uma esperança fraca e míope.

O cenário de destruição que se manifesta ao nosso redor não pode ser tratado com indiferença. Francisco nos lembra que:

A pobreza que mata é a miséria, filha da injustiça, da exploração, da violência e da iníqua distribuição dos recursos. É a pobreza desesperada, sem futuro, porque é imposta pela cultura do descarte que não oferece perspectivas nem vias de saída. É a miséria que, enquanto constringe à condição de extrema indigência, afeta também a dimensão espiritual, que, apesar de muitas vezes ser transcurada, não é por isso que deixa de existir ou de contar.

           

Como exemplo a ser seguido, o Papa nos lembra do Irmão Carlos de Foucauld, um homem que renunciou a tudo para vivenciar o amor a Cristo na simplicidade. Não é a arrogância que deve pautar a vivência da fé cristã, mas o amor incondicional ao próximo. E este amor deve estar presente em cada gesto e em cada ação. O discurso de ódio proferido em nome da fé cristã é um indicativo de que se está tendo dificuldade de manter o olhar fixo nos ensinamentos do Nazareno.

O Papa Francisco conclui a carta com a seguinte expressão: “Oxalá este VI Dia Mundial dos Pobres se torne uma oportunidade de graça, para fazermos um exame de consciência pessoal e comunitário, interrogando-nos se a pobreza de Jesus Cristo é a nossa fiel companheira de vida.”

É com este sentimento que estamos nos preparando para a celebração da VI Jornada Mundial dos Pobres, de 06 a 13 de novembro, tendo o dia 13 como culminância. Vale lembrar a centralidade desta jornada: manter fixo o olhar no exemplo de Jesus de Nazaré, que deve se expressar no fortalecimento do espírito de solidariedade entre nós, tendo a defesa da vida como meta a ser seguida e o amor ao próximo como certeza a ser testemunhada.

« Voltar